A tabelinha Pelé – Coutinho e as organizações  
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Como é de costume nos dias de Copa do Mundo as emissoras de rádio e televisão oferecem uma boquinha para ex – jogadores e técnicos de futebol.

Na verdade os técnicos hoje são mais apropriadamente denominados pelo lisonjeiro título de “professor”. Fico até pensando que quando um deles vai abastecer o carro o frentista turbina a reverência: E aí, Professor Doutor vai aditivada ou comum? Nada mal!

Técnicos, ou melhor, professores, estrelas do gramado, nomes que apenas recordamos quando ouvimos ou revemos somam-se a uma multidão de apresentadores e comentaristas esportivos nas análises dos jogos, dos jogadores e das estratégias empregadas.

Perguntas cadastradas, repostas padronizadas. As mesmas perguntas a espera quem sabe do óbvio diferente. Pode o óbvio ser diferente? Não importa. Porém se é óbvio, porque há de ser diferente?

E nesse raciocínio circular, se sucedem mesas redondas, debates e troca de idéias, em geral, igualmente péssimas. Ou seja, a troca, expediente que em princípio acrescenta valor aos processos, nesse caso produz apenas a ocupação ociosa da mente do ouvinte ou telespectador.

Mas foi numa dessas sessões de ocupação ociosa que me ocorreu à idéia desse artigo. Lá estava o habilidoso Coutinho. Para quem não sabe Coutinho, foi um grande astro do futebol brasileiro. Ele e Pelé, jogando no Santos, enlouqueceram as defesas dos times adversários. Os Corinthianos mais velhos, principalmente, devem guardar lembranças amargas do jogo rápido e do entendimento perfeito desses dois antigos craques.

A imagem do Coutinho trouxe imediatamente a lembrança da minha infância. Lembrei das disputas acirradas nos jogos de botões. Lembrei que tais disputas se tornavam ainda mais calorosas quando acontecia a Copa do Mundo. Ocorreu-me também que naquela época a Copa do Mundo era um evento tão distante que apenas podia ser ouvido.

Aquele antigo astro que a todos encantava com seus dribles, passes e chutes certeiros, revelava justificável decepção com o milionário time brasileiro. De fato, apáticos e desconectados os jogadores não compunham um verdadeiro time. Eram apenas estrelas sem brilho, apagadas pela incapacidade de entender, de fato, a lógica do jogo.

O jogo tem um propósito claro: o gol. O gol é a consagração de todos os esforços. Fazê-lo, principalmente em uma Copa do Mundo, é tarefa para os fortes.

Forte não é apenas aquele que joga bem, dribla certo, pedala, e sabe lançar. Mas, forte é aquele que além de procurar sempre superar as suas limitações, vê no outro as possibilidades que lhe faltam. Ele mata a bola no peito, dá chapéu, dribla de forma desconcertante, mas sem espaço ele precisa do outro para chutar. E aí vem o gol, resultado de um trabalho conjunto. Afinal como se diz: o futebol é esporte coletivo.

Pelé e Coutinho jogavam com sincronia. Na área eles eram fatais, mas sem os outros nove a bola não lhes chegaria aos pés. Sem os outros nove as famosas tabelinhas não teriam existido. Pelé e Coutinho teriam sido de qualquer modo excepcionais jogadores, porém só isso.

Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaka, Robinho, Roberto Carlos e Cafu são jogadores excepcionais. Perdemos primeiro fora do campo. No campo apenas ratificamos nossa derrota.

As pressões externas, as enormes possibilidades pessoais e a incapacidade de geri-las, liquidaram o time. Divididos, inebriados pelos dotes pessoais os craques brasileiros tornaram-se reféns se si próprios. Perderam para eles mesmos, antes de serem derrotados por Zidane e seus comparsas.

Coutinho com 40 anos a menos teria sido, com certeza, selecionado para esse time. Talvez em lugar do quadrado mágico tivéssemos o pentágono mortal. Aí então em lugar de sermos derrotados com o quadrado mágico, teríamos perdido com o pentágono mortal. Coutinho não teria feito nenhuma diferença.

Acabei esquecendo de falar das organizações. Será que é mesmo necessário?