Em 1347 a Europa foi vitimada pela peste bubônica. Em apenas um ano sucumbiram, vítimas da doença, nada menos que dois terços da população européia. Os marinheiros vindos da Ásia contraíram a doença e a propagaram rapidamente em razão das péssimas condições de higiene do final da Idade Média e a enorme concentração de pessoas existente nas cidades do velho continente.
Trata-se, sem dúvida de um episódio dramático e único na história. Depois de causar um número de mortes sem precedentes, a doença praticamente desapareceu: repentinamente, do mesmo modo que havia surgido. Ela voltaria a atacar, mas não mais com a mesma força letal.
Este fato incrível nos deixa ainda hoje estupefatos. Imaginem as reações das pessoas no século XIV. Muitas hipóteses foram levantadas. Os sábios franceses acreditavam que a doença era provocada pelos terremotos que estavam abalando territórios no extremo Oriente. Outros atribuíam a causas ainda mais vagas, para não falar daqueles que julgavam tratar-se de uma punição divina.
Nos deixa também perplexos o tempo decorrido para que se descobrisse o mecanismo de transmissão da doença: nada menos que quinhentos anos! Somente em meados do século XIX é que se conseguiu enfim saber exatamente o que havia de fato ocorrido naquele fatídico ano de 1347.
Essas considerações suscitam um paralelo. Infelizmente a AIDS ainda mata. Entretanto, diferentemente do que ocorreu com a peste bubônica, ao surgirem os primeiros casos descritos com a mesma sintomatologia, no final da década de 70, foram necessários apenas cinco anos para que o vírus fosse perfeitamente identificado.
A exemplo desses dois fatos no campo da medicina, seria possível listar muitas outras situações igualmente emblemáticas. Tais diferenças devem ser entendidas obviamente como resultante direta do desenvolvimento científico, particularmente o ocorrido nos dois últimos séculos.
Tal expansão se explica, em boa parte, pela velocidade das comunicações. Ciência, e consequentemente desenvolvimento tecnológico, requer geração e compartilhamento contínuo de informações. Gradativamente, graças ao progresso técnico, da simples estrada até a sofisticada comunicação eletrônica, vem se construindo, ao longo dos anos, a aldeia global em que habitamos.
Esse desenvolvimento tecnológico que nos torna vizinhos globais evidentemente produz extensos efeitos políticos e econômicos. Em termos políticos um exemplo por certo ilustraria essas mudanças. A guerra do Iraque exemplo, por acaso poderia se manter pelo mesmo tempo que se estendeu a do Vietnam? Muito provavelmente não. Qual o presidente americano que suportaria a pressão dos seus eleitores vendo (on line) seus filhos sendo mortos nos campos de batalha de um país longínquo?
Na área econômica diversas são as dimensões do impacto do desenvolvimento científico e tecnológico. Fiquemos apenas com uma: a tendência à padronização. As comunicações mais rápidas têm aproximado padrões de comportamento de consumo entre diferentes culturas. O desenvolvimento tecnológico tem imposto, por exemplo, uma forma particular de desenho dos automóveis. Por questões de aerodinâmica todos os veículos tem assumido uma forma de cunha. Os aparelhos de TV, por sua vez, não apenas se assemelham, são praticamente iguais. Isso não ocorre apenas para produtos, os serviços também seguem a mesma trajetória. Se trocarmos as placas de identificação de um supermercado pelo de seu concorrente seria difícil que um consumidor percebesse significativas diferenças operacionais que revelariam tal mudança. O mesmo ocorre com muitos outros serviços.
A conseqüência desse fenômeno é uma dificuldade crescente das empresas em promover a diferenciação tendo como resultante uma intensificação da competição. A sobrevivência torna-se muito mais complicada. Neste cenário, onde tudo se transforma velozmente, a pré - condição para seguir adiante é buscar ampliar a dotação do recurso produtivo mais valioso: a informação. É preciso, não há dúvida, investir em equipamentos, instalações e sistemas. Entretanto, o mais importante é o capital humano. O capital humano é o resultado dos investimentos em educação. O posicionamento competitivo depende de forma crescente da capacidade das pessoas em levantar, selecionar e analisar informações.A perenidade jamais foi um atributo inquestionável do mundo dos negócios: as organizações também desaparecem. No passado remoto as leis de mercado operavam em outro ritmo: de quinhentos em quinhentos anos. Hoje, por certo, um qüinqüênio representa uma eternidade.
|