A linha e o linho

 
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Desde tempos imemoriais até nossos dias, a trajetória do homem é repleta de grandes conquistas e realizações espetaculares. Com gênio e arte, ele transformou os mais inóspitos ambientes em lugares propícios ao próprio desenvolvimento através de sucessivas descobertas num intenso e ininterrupto processo evolutivo em todos os campos do conhecimento. Nessa jornada em que desafios e obstáculos são vencidos ou simplesmente superados, novos problemas apresentam-se simultaneamente. Observar com atenção os passos dados não garante antever o que se avizinha. Muitas vezes, ao contrário, os sentidos são indevidamente aprisionados por experiências que não mais se repetem.

Por outro lado, examinar o caminho percorrido e aprender com ele permitem que se dilatem os horizontes e se ampliem as percepções. Assim, e a despeito das incertezas, o ato de prosseguir sempre oferece a possibilidade de ajustar os próximos passos, tendo em vista o que está por vir.

Embora os seres humanos vivam hoje muito distantes das condições enfrentadas por seus ancestrais, suas motivações básicas são as mesmas de seus parentes longínquos. Poder, amor, ódio, paixão, prazer permanecem intactos como forças motrizes das relações humanas. Pensar estrategicamente requer um desprendimento das condições imediatas e uma compreensão abrangente dos determinantes históricos. Paralelos e analogias libertam a imaginação criativa e permitem superar obstáculos aparentemente intransponíveis, como a Linha Maginot.

Linha de defesa construída, nos anos 1930, pela França ao longo de suas fronteiras com a Alemanha e a Itália, o conjunto de fortificações homenageou André Maginot, um combatente da Primeira Guerra Mundial e grande incentivador de sua construção. Não obstante, condenou o país a um retumbante fracasso, invadida pelos exércitos de Adolf Hitler, que, valendo-se de um conjunto amplo de recursos militares aplicados simultaneamente e contrariando todas as avaliações, entraram pelas Ardenes e, em 14 de junho de 1940, desembarcaram na Avenida Champs-Elysées, passando debaixo do Arco do Triunfo, sob os olhares estarrecidos dos parisienses, revelando a falsa e equivocada sensação de segurança conferida pela Linha Maginot.

Uma invasão que duraria quatro longos e sangrentos anos e produziria um capítulo obscuro da história daquele país, tendo como origem, entretanto, a própria divisão interna da sociedade francesa. Cisão que remontava ao fim do século 19, ceifada por ódios políticos amargamente gerados e difundidos, desorganizada e paralisada por uma disputa interna feroz entre esquerda e direita. Ao contrário da unidade alemã, impulsionada pelos nefastos ideais do nacional socialismo. Esse episódio oferece pelo menos três elementos instigantes que permitem delinear um paralelo com a gestão empresarial e o mundo dos negócios. Em primeiro lugar, uma empresa dividida é como a França era vista naquele momento. Segundo, a sensação de segurança aparentemente garantida pela famosa linha de defesa fez com que a sociedade francesa se comportasse como uma companhia que se sente protegida pelo poder imagético de uma marca, a confortável participação no mercado etc., até que, repentinamente, apercebe-se que se mantém ereta e firme, porém sobre um cadafalso. E, finalmente, a incapacidade de se desprender de padrões do passado, que fez os franceses imaginarem que a investida alemã se faria da mesma forma e pelo mesmo lugar.

As Ardenes e a tática (arrasadora) da Blitzkrieg (guerra relâmpago) encarregaram-se de revelar a ingenuidade desses pressupostos. Pressupostos que, freqüentemente, permeiam as decisões produzidas pelos gestores das organizações. Enquanto o mundo se transforma, a postura narcisista e encapsulada faz com que muitas se curvem e encolham, incapazes de aceitar a inexorabilidade da transformação. Portanto, mesmo que o olhar atento sobre o desenrolar da história nada assegure, permite em todo caso que se aprenda muito sobre a essência da natureza humana.