A história humana pode ser vista como a trajetória do homem frente aos seus desafios. A necessidade da sobrevivência obrigou-o a caçar animais, buscar abrigo, controlar a força da natureza, enfim impor-se como senhor absoluto da criação.
Jared Diamond (2004) em seu instigante trabalho Armas, germes e aço analisa treze mil anos de história dos continentes para explicar porque os povos eurasianos conquistaram ou desalojaram, ou ainda simplesmente dizimaram os povos das Américas, Autrália e África. Por que não se deu o contrário, ou seja, por que não foram os eurasianos dominados ou aniquilados?
Jared um biólogo evolucionista responde a essa questão em termos das oportunidades que se estabeleceram para os povos eurasianos. Essas oportunidades redundaram em melhores armas, avanço tecnológico (aço) e condições mais favoráveis para enfrentar as doenças. A tese do autor é dramatizada na indagação que faz: porque o imperador inca Atualpa não capturou o rei Carlos I da Espanha? Apenas 168 soldados espanhóis, comandados por Pizarro, enfrentaram e colocaram de joelhos 80.000 incas!
Porter explica o desenvolvimento econômico de diferentes países a partir de um conjunto de forças, entre elas dá especial destaque à qualificação da demanda. Para ele à existência de consumidores exigentes constituí-se em uma poderosa força propulsora na direção de avanços técnicos e científicos. Aqui no Brasil, no início da década de 90, quando se falava da necessidade da indústria automobilística enfatizar as linhas de carros populares, solicitou-se à volta do famoso fusquinha. Hoje sabemos e não aceitamos um carro econômico com os padrões do saudoso fusquinha.
Para enfrentar esses desafios o homem precisa evidentemente se preparar. Só se obteve armas eficazes, tecnologia adequada aos problemas e capacidade para superar as doenças porque os eurasianos conseguiram organizar-se apropriadamente em termos sociais e políticos.
A luta pelo título para um boxeador começa por certo muitos meses antes. Exercícios, lutas preparatórias, apoio psicológico etc. Tudo isso porque existe o desafio. A incerteza do resultado estimula a preparação. As deduções lógicas se verificam em boa parte das vezes. Porém há também o inusitado, que transforma e muda completamente um determinado curso esperado de ações. Há, com freqüência, um James (Buster) Douglas surpreendendo um poderoso Mike Tyson com um inesperado cruzado de direita.
A superação de desafios exige, portanto, preparação. A preparação não suprime os riscos, ela simplesmente nos deixa em condições de dar respostas, às vezes, até mesmo para o inusitado. Pizarro não tinha planejado a vitória da forma que ocorreu. É provável, na verdade, que nem sequer tenha imaginado deixar o campo de batalha vivo. Os índios se apavoraram com as armas de fogo e os cavalos que nunca tinham visto e se deixaram matar e dominar de forma absurda.
Para fugir do desconhecido no enfrentamento dos desafios é que nos preparamos. Procuramos visualizar as diferentes situações, imagina-las dinamicamente, de forma relacional procurando construir cenários mentais que possam produzir respostas antecipadas que nos aliviem dos efeitos do desconhecido.
A surpresa dominou Ataualpa e seus soldados. Poderia o imperador inca ter agido de modo diferente. Poderia Ataualpa ter previsto a atuação tão devastadora de seus inimigos? Faltou planejamento? É claro que não. Ataualpa estava marcado para morrer tão logo as tropas de Pizarro desembarcaram em território americano. Ataualpa não sabia disso, tampouco Pizarro. Esse resultado foi determinado pela própria dinâmica da história.
Pouco mais de uma centena e meia de soldados espanhóis, maltrapilhos, cansados, pouco adaptados com as condições do terreno superam o exército inca de forma tão espantosa que, os próprios espanhóis atribuíram tão impressionante vitória exclusivamente aos desígnios divinos de que estavam imbuídos: Venceram por serem ungidos de Deus! Disse Pizarro a Atualpa: “Não tome como insulto o fato de ter sido derrotado e feito prisioneiro, porque com os cristãos que me acompanham, embora poucos, eu conquistei reinos maiores que o seu e derrotei senhores mais poderosos que você, impondo-lhes o domínio do Imperador, de quem sou vassalo. Viemos para conquistar esta terra sob suas ordens, para que todos tomem conhecimento de Deus e de sua sagrada fé católica (Jared 2004, p.73).
A dinâmica da história é o elemento atrator que evidencia o resultado. Atrator tem um sentido bem específico no contexto da Teoria do caos. Ao observar a natureza percebemos claramente o sentido desse conceito. Por exemplo, as formas que a natureza oferece, vê-se que a despeito da aleatoriedade de pontos e linhas específicas, há uma ordem subjacente a aparente desordem. Cada forma tem um padrão que se repete, como se os elementos constituintes da natureza fossem atraídos por algo que lhe dão identidade.
Em 1955 um cientista de cerca de 38 anos, chamado Edward Norton Lorenz, preenche a vaga deixada por Thomas Malone no corpo docente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Lorenz assume a direção de um projeto de pesquisa relativo à previsão estatística do tempo . Utilizando um sistema de equações não linear Lorenz percebeu que ao realimentar sistematicamente o modelo com números diferentes apenas na quarta casa decimal, os resultados das novas simulações apresentavam valores totalmente disparatados, não justificados, em princípio, por variações tão pequenas dos valores iniciais. Os valores das previsões se examinados estatisticamente se revelariam decorrentes de um comportamento inteiramente aleatório. Entretanto, tais números haviam sido produzidos, paradoxalmente, por um modelo matemático determinístico. Mais uma vez: existe uma ordem na aparente desordem.
Um conjunto de objetos estudados que se inter-relacionem é chamado de sistema. Os sistemas podem ser classificados em duas: lineares e não-lineares. Nos lineares a resposta a um distúrbio é diretamente proporcional à intensidade do estímulo. Já na segunda categoria de sistemas, ou seja os não – lineares, a resposta não é necessariamente proporcional à intensidade do distúrbio. É exatamente esta categoria de sistemas que serve de objeto de estudo a teoria do caos. A interatividade dos fenômenos torna o caos uma situação das mais características nos comportamentos naturais e sociais.
Ataualpa como Pizarro eram apenas dois personagens no curso da história. Dois indivíduos a mercê da história. Dois indivíduos atirados no rio da história. Eram capazes de ver as margens e um pouco mais adiante, mas incapazes de perceber que ambos corriam juntos com o rio para o mar.
Os desafios impulsionam a criatividade, nos preparam para o desconhecido. Entretanto, vivemos em um trecho do rio incapazes de perceber sua extensão, detalhes e recortes. A preparação é a resposta que damos aos desafios, entretanto, por mais informações que tenhamos estaremos sempre a bordo de uma dinâmica incontrolável, e também, muitas vezes imprevisível.
A importância do planejamento nestas condições precisa ser relativizada e seu papel qualificado. O planejamento como preparação para os desafios é justificável. O lutador de boxe precisa ter bom jogo de pernas para se livrar dos golpes do adversário e devolvê-los de modo contundente. Os golpes podem vir de qualquer direção e com diferente intensidade. O lutador controla a sua preparação e não a luta.
Uma empresa é uma unidade de transformação. Transforma matérias – primas, trabalho, capital em produtos e serviços. Tal processo decorre da interação de aspectos técnicos e gerenciais. O marketing de uma empresa, depende da qualificação de seus funcionários, esse nível interfere nas operações, estas por sua vez condicionam a competitividade da organização e assim por diante. Em síntese uma empresa é um sistema de relações interativas internas e com o ambiente. Em outras palavras a empresa é um exemplo marcante de um sistema não – linear dinâmico, ou seja complexo. Essa complexidade produz a imprevisibilidade: a desordem. Reconhecê-la é o primeiro passo para lidar com o fenômeno.
A complexidade, é importante que se diga, tem se ampliado. Embora a evolução da tecnologia de informação tenha facilitado à captação e análise de bases de dados, o número de interações dos sistemas e a respectiva amplitude têm aumentado.
A tecnologia tem evoluído no sentido de transformar de fato o mundo em uma grande aldeia. Esse processo se assenta evidentemente na expansão e na velocidade crescente das comunicações. O número de variáveis a serem observados para a tomada de decisão certamente é muito maior hoje do que no passado. A internacionalização dos mercados é uma realidade. Tomamos conhecimento imediato de eventos ocorridos em qualquer lugar do planeta.
Esses pontos nos remetem a pelo menos dois aspectos no que diz respeito à gestão das organizações. O primeiro diz respeito à prioridade que se deve dar a gerência do dia a dia. Segundo a como devemos encarar a própria realidade.
Como somos incapazes de perceber tudo, pois a percepção é um processo eminentemente seletivo ao perceber alguma coisa outras tantas nos escapam, é fundamental dar atenção priorizando a aquilo que somos capazes de fato gerir. Portanto, reflexões estratégicas amplas valem como exercícios intelectuais, nos ajudam a desenvolver musculatura para enfrentar problemas, mas não nos protegem do inesperado. Pensar em termos de cenários é sempre interessante, porém as divagações tais como as intermináveis discussões sobre visão, missão e objetivos são desprovidas de qualquer valor. Melhor é assumir que uma organização, em um mundo capitalista, foi constituída para obter lucro. Todo o resto são meios para que se alcance este resultado de forma ética.
O segundo aspecto é que as organizações por maior que sejam são dependentes do ambiente. O ambiente estabelece as condições. A dinâmica da história tem sempre trazido boas e más surpresas. Surpresas que simplesmente mudam o rumo esperado da história.
Como pontua um autor que procurou aplicar os conceitos do caos ao estudo das organizações. Ruben Bauer (1999) afirma que os conceitos do caos mudam os paradigmas “as organizações são compostas pelas interações entre seus membros, em vez de pelos seus membros” Tal mudança de paradigma implica em três outras importantes decorrências: “as estruturas são emergentes, em vez de planejadas; a informação é fundamentalmente livre, em vez de controlada; e a ordem é criada principalmente a partir da informação, em vez de pelas estruturas” (Bauer, 1999, p.239)
Essas idéias talvez possam ser ilustradas com um pequeno fato. Um piloto desses tais ultraleves sobrevoava uma região quando repentinamente o motor do equipamento simplesmente parou. Por sorte, ele não ficou desorientado e teve calma suficiente para se lembrar das aulas preparatórias que o ensinaram a enfrentar situações de emergência. Muitas pessoas ao se verem nessa situação assumem um comportamento irracional que é o de puxar o manche para cima, tentando fazer o aparelho subir. Porém como o motor está desativado essa atitude gera um efeito que traz o aparelho para baixo mais rapidamente e de forma desgovernada. O piloto sobreviveu porque ele se preparou e lembrou que nessas situações você precisa aceitar que o motor parou e procurar planar o mais suavemente possível para encontrar algum lugar seguro para aterrizar.
Porém não raro a situação é tão inusitada que não há padrões de referência. Atualpa não poderia ter vencido embora estivesse preparado. Os milhares de homens de nada lhe serviram diante do inesperado. Tyson também beijou a lona vencido por um desconhecido. Embora ao subir ao ringue as regras estivessem claras, fechado em si mesmo o campeão não percebeu que o inexplicável conspirava contra ele, o soco avassalador veio exatamente de quem ele menos esperava.
Diamond, J (2004) Armas , germes e aço, Editora Record.
Bauer, R (1999) Gestão da mudança, Editora Atlas
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