Quietude e Turbulência

 
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Com certeza, a característica marcante dos seres humanos é a inteligência. Por meio dela, capacita-se a solucionar problemas, inventa ações ou recursos que permitem a superação de problemas e obstáculos. Assim surgiram as armas, conseqüência da necessidade de sobreviver que impelia os indivíduos ao enfrentamento, tanto por questões de defesa como também por necessidades alimentares.

Lutar com animais, muitas vezes maiores e consideravelmente mais potentes que os humanóides, impulsionou sua criatividade de modo a mitigar a necessidade da força bruta. Ao aumentarem seu poder muito tempo depois, as armas de fogo se transformaram numa resposta à tentativa de vencer os combates sem precisar do confronto corporal.

Das cavernas aos edifícios, do trabalho artesanal às enormes plantas industriais, pode-se dizer que todo o esforço humano destina-se à superação dos desafios nos diversos ambientes que condicionam a própria existência. Técnicas se sucedem à medida que há avanço do conhecimento, que em progressão resultam no chamado desenvolvimento tecnológico. E que, por sua vez, não se restringe ao desenvolvimento científico, apoiando-se mas não se limitando a ele. Assim, portanto, a tecnologia se municia não apenas do conhecimento científico, mas também do senso comum, definida por Walmir Pirró, especialista no assunto, como “o conjunto de todo conhecimento a serviço de uma finalidade comercial”. Um exemplo? Os contêineres de carga, nada mais do que uma robusta caixa metálica facilitadora do uso compartilhado por diversos meios, que revolucionou o sistema de transportes.

Essenciais para a compreensão dos movimentos inovadores são as teorias seminais do economista Joseph Schumpeter (1883–1950). Para o pensador austríaco, qualquer mercado tem momentos de quietude e de turbulência, sendo esta causada por mudanças técnicas que afetam as relações estabelecidas nos mercados, provocando alterações num item essencial, a lucratividade. Se os gestores desenvolvem, introduzem e absorvem tais tecnologias em ritmos diferenciados, os empreendedores conseguem extrair vantagens das oportunidades propiciadas por esses choques, obtendo resultados significativos durante o período seguinte, o da calmaria.

Obviamente essas considerações remetem à indagação natural de como uma organização pode ser inovadora. Ou ainda, como pode manter-se latente uma postura voltada ao desenvolvimento tecnológico. Um bom indício, hipoteticamente, seria sondar a mente de um grande inventor, aquele ente a priori sintonizado profundamente com o seu tempo, capaz de perceber carências ou inadequações, detentor do domínio de mecanismos e processos que, através do exercício do conhecimento, muda, ajusta ou transforma os modos de fazer ou de pensar.

Uma organização disposta a romper com a quietude, nos termos propugnados por Schumpeter, apropriando-se dos benefícios de tal ruptura, deve ser de forma ampla, um corpo inventivo. Sem com isso se confundir o novidadeiro, e sim associando-se ao criativo. A exemplo dos grandes inventores, devem estar sempre sintonizada com a procura dos espaços vazios, delimitados entre o que se faz e o que se encontra tácita ou explicitamente na mente de seus consumidores.

Entretanto, é preciso, obviamente, que a estrutura favoreça a criatividade. Freqüentemente, as organizações deixam-se afastar dos interesses do mercado, isolando-se no refúgio da dinâmica de suas políticas internas. Essa reclusão, sustentada por uma estrutura hierárquica sem flexibilidade, elimina a capacidade inovadora, atravancando a proposição ou a adoção de novos modelos. Adaptar-se ao meio e superá-lo é a maneira de sobreviver e vencer, sendo a inteligência dos seres humanos o recurso disponível para tais conquistas. Inteligente é aquela empresa estruturada para superar os desafios impostos pelo ambiente. E a inovação é, sem dúvida, o caminho.